18 de jan de 2018 por Guilherme J. P. Mello

Crítica: Sobrenatural: A Última Chave

 

Quarto filme da franquia é apenas o feijão com arroz do cinema de terror

Em 2010, a dupla Leigh Whannell (Jogos Mortais) e James Wan (Jogos Mortais e Invocação do Mal) daria início a franquia Sobrenatural (Insidious) em meio ao pequeno declive em que os filmes do gênero de terror tradicional passavam à época, especialmente após o ressurgimento do Found Footage, com o sucesso de Atividade Paranormal (2007).

Insidious (boa parte dos fãs da franquia no Brasil a chama pelo título original, em inglês, devido a popular série homônima dos irmãos Winchester) fora recebido tanto pelo público como pela mídia especializada como um filme de terror decente, indicando à indústria que a formula conservadora ainda não se encontrava desgastada.

O enredo do filme original girava em torno da família Lambert que, desesperada pelo estado de coma do seu filho Dalton (Ty Simpkins, de Jurassic World), recorre às soluções pouco ortodoxas da médium Elise Rainier (Lin Shaye).

Com modesto orçamento de produção, apenas U$1,5 milhão, e uma arrecadação estimada de U$97 milhões, o filme não só garantiria sua continuação direta, como também dois prelúdios à história original, incluindo a atual película de 2018, vendida como “capítulo final”, fechando o ciclo da história de Elise, personagem que se tornara marca registrada da franquia até aqui. Seu instigante passado garantiu a maior longevidade da série, mas também sua iminente ruína. Voltarei a tocar nesse ponto mais adiante.

No novo capítulo, Elise é novamente atormentada após os eventos do terceiro filme com assombrações demoníacas. Dessa vez, de modo mais pessoal, a médium se vê obrigada a voltar à casa onde passou parte de sua traumática infância nas mãos do pai abusivo.

Elise continua sendo a melhor parte da franquia

Nada de novo

Dirigido pelo pouco conhecido Adam Robitel (A Possessão de Deborah Logan, 2014), Sobrenatural 4: A Última Chave não se destaca em nenhum aspecto técnico. O filme é pragmático, com ângulos tradicionais e desgastados quando comparados aos trabalhos de James Wan, agora produtor-executivo da série, em Invocação do Mal 2 (2016). Robitel não desenvolveu qualquer estilo próprio, limitando-se a uma cópia de carbono malfeita e desinteressada dos filmes anteriores.

O roteiro gera curiosidade, amarrando diversas tramas consecutivas sem deixar remendos aparentes. Definitivamente, é possível notar o talento Leigh Whannell como roteirista, assim como seu teor cômico nas cenas ao lado de Angus Sampson (Tucker), pelo menos no primeiro terço do filme. Leigh Whannel, que também é ator, interpreta o ajudante Specs no filme. A partir do terceiro ato do filme, o humor da dupla derrapa, tornando-se constrangedoramente ruim e de mau gosto, particularmente após a introdução das atrizes Spencer Locke e Caitlin Gerard.

Em conjunto, o trio principal funciona adequadamente, sem aparentar quaisquer ‘excessos’, problema observado no filme anterior. Como sempre, o destaque é Lin Shaye. Também merecedor de destaque é Kirk Acevedo, interpretando o atormentado Ted Garza, cuja casa, que pertencera a família de Elise, volta a ser assombrada, trazendo para o presente os fantasmas do passado da médium. O ator, embora pouco conhecido, merece ser prestigiado, embora não ostente grande participação na trama.

Enredo sem grandes consequências

É instigante, como havia mencionado, o passado de Elise, digno de ser retratado nas telas. Contudo, a não adição de novos personagens de maior destaque, cujo destino, diferentemente de Elise, desconhecemos, torna a trama despretensiosa.

O irmão da protagonista e suas filhas, introduzidos na película, não oferecem qualquer engajamento ao público, parcialmente devido as atuações esquecíveis. Problema sabiamente evitado no filme anterior, que nem chega a ser considerado uma boa sequência da franquia.

Novamente, é preciso que se faça uma ressalva. Não considero o roteiro fraco para o que o filme se propõe a executar – embora ressalto que, se colocado em perspectiva com os demais filmes da série, em especial com os dois primeiros, é possível notar alguns furos, ainda que diminutos. Como não há qualquer consequência para franquia, o quarto longa mantem a série estagnada pelo segundo filme consecutivo.

Criatura desinteressante e descontextualizada

Esteticamente, os antagonistas da franquia sempre foram, no mínimo, interessantes, embora nem um pouco originais. Como o caso do “Darth Maul” da série – por acaso, o mais recorrente antagonista. Na quarta adição, somos apresentados a Key Face, um demônio que parece ter saído de um filme do Guillermo del Toro.

As cenas aterrorizantes com fantasmas, tão populares no primeiro filme, têm um tímido retorno no filme. Dificilmente um público calejado se assustará com os jumpscares telegrafados e ultrapassados. Não há sustos que não sejam acompanhados de um alto som. Parece que Adam Robitel nada aprendeu com as sutilezas de James Wan no primeiro filme (Ressalvo: o primeiro filme também usou e abusou dos jumpscares, mas há, como sustento, notável sutileza em alguns momentos, característicos de Wan na direção).

Key Face é certamente a mais desinteressante das abominações sobrenaturais que a franquia já nos reservou. Diferentemente da Bride in Black, não oferece qualquer profundidade. O monstro funciona como o antagonista e somente isto. Apenas com sutis sugestões de sua origem nas execuções da penitenciária vizinha – aspecto completamente desperdiçado no filme.

Apesar de pragmático, a sequência inicial do filme merece destaque, pois serve perfeitamente para instigar o público a conhecer a história da infância de Elise – aspecto mais interessante de todo filme. O fato de a trama não obedecer nenhuma estrutura fixa por mais do que 30 minutos de filme é também, a meu ver, um acerto. Embora não signifique que o roteiro seja imprevisível, o fato de a estrutura ser volátil garante gás o suficiente para que o filme não se torne tedioso.

Sobrenatural 4: A Última Chave não é nem de longe um filme ruim. É o popular feijão com arroz do cinema de terror. Em nada desperta a atenção dos fãs da franquia, pois o destino do trio principal já é conhecido desde o primeiro filme, tão pouco de novos fãs, pois carece de profundidade – e, em alguns momentos, aposta no puro sentimentalismo, que pode até funcionar em contexto, mas se beneficiaria com uma melhor exploração dos personagens. Cotação: ★★

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