06 de set de 2017 por Guilherme J. P. Mello

Crítica – IT: A Coisa

O palhaço Pennywise retorna em filme que mistura terror e comédia de qualidade.

 

Os anos oitenta nunca estiveram tão em moda. Após o sucesso da série ‘Stranger Things’ (2016), um verdadeiro tributo ao gênero de horror daquela década, o clássico livro de Stephen King ‘It – A coisa’ ganha a sua primeira adaptação às telas de cinema.

Sim, você não leu errado. O famoso filme dos anos noventa, que consagrou Tim Curry no papel do assustador palhaço Pennywise, se tratava, na realidade, de uma minissérie de dois episódios produzida pela televisão americana ABC – mais tarde adaptada para um telefilme de 3 horas de duração.

Mesmo com as limitações no orçamento, o filme continua sendo reverenciado como um dos melhores filmes de horror de todos os tempos. Então, qual seria a necessidade de fazer um remake da “obra prima do medo”, como destacava o subtítulo do filme no Brasil? Bem, para responder essa questão busco duas explicações plausíveis.

A primeira, mais lógica: dinheiro. A segunda década dos anos 2000 só nos ofereceu, até o momento, remakes, reboots ou mesmo os dois juntos. Concluir que a nova adaptação de ‘It’ se enquadra nessa hipótese é apenas uma dedução lógica.

A segunda – e, honestamente, minha predileta – é o fato de a versão dos anos noventa não ter aproveitado o riquíssimo universo criado por Stephen King, oferecendo, com suas já citadas limitações orçamentárias, apenas uma versão simples da trama. Vale lembrar que a minissérie foi concebida, inicialmente, para ter oito horas de duração, divididas em quatro episódios. O que não aconteceu.

Não é surpresa que o novo filme do diretor Andrés Muschietti (Mama, 2013) é apenas o primeiro capítulo da história do palhaço Pennywise. A escolha de não condensar os dois momentos do livro de King, como fez a minissérie de Tommy Lee Wallace, talvez seja o principal atrativo do filme de 2017.

O segundo atrativo, eu diria, é a escolha do elenco. Mas ponha um pino nesse ponto, pois voltarei a tratar dos aspectos negativos dele em breve. Sophia Lillis oferece uma surpreendente performance como Beverly Marsh e Finn Wolfhard, apesar de já ser um rosto conhecido do público pelo seu papel como protagonista de ‘Stranger Things’, diverte em cada intervenção de seu personagem, Rickie Tozier. Destaque também para Jack Dylan Grazer, o cômico hipocondríaco Eddie Kaspbrak, e Jaeden Lieberher, o carismático líder gago do ‘Clube dos Otários’. Os demais membros do clube não tiveram desenvolvimento o suficiente para marcarem suas interpretações dos clássicos personagens.

O destaque “negativo” fica para o pouco tempo de tela que teve Chosen Jacobs (como Mike Hanlon), interpretando o único negro do clube. Injustiça presente também na primeira adaptação, semelhante a conhecida polemica do caça-fantasma negro, renegado a um “segundo escalão” da equipe no longa estrelado por Bill Murray – injustiça curiosamente repetida no reboot de 2016.

Nova geração do Losers’s Club

Matando a saudade de Maine

Agora, voltemos ao que nos interessa. Outro ponto muito forte do filme é a reconstituição de época e a composição de cenário. Tudo meticulosamente pensado para a total imersão dos espectadores nos anos oitenta do estado americano de Maine, terra natal do autor do livro, Stephen King. Vale lembrar que foi uma sábia escolha adaptar o longa de 2017 para os anos oitenta, já que tanto a série como os livros se passam nos anos sessenta.

Você já sabe o que esperar: crianças reclamando da escola e pedalando suas bicicletas pelas ruas da cidade para fugir de bullies repetentes de camisetas regatas – eles parecem ter abolido o casaco de couro barato e o topete com gel nessa versão, talvez para dar uma ideia de cidade atemporal, como em ‘Corrente do Mal’ (2014), o que eu particularmente aprovo. Não há nada pior para imersão do que um personagem caricato demais para os padrões atuais.

A trilha sonora é competente na maior parte do tempo, mas não é nem de longe tão memorável como a versão dos anos noventa. Confesso que só me lembrarei vagamente de duas. Uma no começo e a outra nos créditos finais. O que é frustrante para um adorador de trilhas sonoras como eu.

As canções diegéticas são verdadeiramente hilárias e estão em sintonia com as piadas e o humor do filme. Veteranos e iniciantes dividirão boas risadas com as intervenções das músicas da boy band ‘New Kids on the Block’.

Outro ponto – e esse certamente dividirá o público – é a violência. O filme chega ao Brasil com classificação indicativa para maiores de 16 anos. O que incomodará um público mais conservador. Devo avisar de antemão que o filme contem cenas fortes de violência envolvendo crianças de 8 a 14 anos de idade, o que por si só já bastaria para uma classificação aconselhada na faixa dos 18 anos. Porém, o bom humor do filme (bem ácido às vezes) agradará por igual adultos e adolescentes. O que faz a escolha final recair nos ombros dos pais.

‘It – A coisa’ é o filme que melhor conseguiu mesclar terror e comédia nos últimos anos, ultrapassando, em minha opinião, o aclamado ‘Corra! ’ (2017) – mas, calma, apenas no quesito humor. ‘Corra! ’ continua sendo o melhor filme de terror desse ano.

Duas interpretações bem diferentes do palhaço Pennywise

Toda criança gosta de um palhaço do mal

Agora que acredito já ter deixado bem claro que o filme é certamente um dos melhores do ano, vamos para a parte chata, o grande problema do filme, aquela parte do elenco que pedi para lembrarem: Bill Skarsgard não é um bom Pennywise. A escolha mais crítica do elenco, o palhaço que assombra as crianças da vizinhança, não funciona tão bem como no filme original.

Entendo que talvez a opinião não seja tão popular, mas não posso deixar de notar que não há nada do vale da estranheza (quando algo é próximo o bastante de uma imagem conhecida, mas não o bastante para deixar de causar incomodo em quem o vê) na performance de Bill. Esse Pennywise é assustador pelo simples fato de ser assustador. Não há incerteza, não há nenhum tipo de nuance na interpretação. Que criança sã conversaria com um palhaço de olhar sempre ameaçador e satânico? Tim Curry, imortalizado por interpretar Pennywise, e a equipe criativa por trás da minissérie percebeu essa sutiliza.

Talvez por falta de recursos, o antigo Pennywise era limitado a um palhaço normal, que, gradualmente, transformava-se em criatura cósmica diabólica – contudo, mais sobre a origem do palhaço na sequência do filme. Por ora basta o mistério.

Porém, nem tudo é ruim. A interpretação de Bill Skarsgard é claramente influenciada pelo clássico Jacob’s Ladder (1990) e pelas pinturas grotescas de Francis Bacon (1902 – 1992), sempre presente nas referências do horror. Mas é evidente o compromisso do ator com o papel, que, inclusive, vem sofrendo com pesadelos envolvendo a criatura imaginada por King, ao ponto de questionar o seu eventual retorno na continuação.

Muitas referências ao trabalho do pintor Francis Bacon

É uma pena que a versão de 2017 não tenha superado versão de 1990 por uma mísera, porém crítica, escalação. Em nenhum momento Bill Skarsgard consegue atingir o carisma ou a tensão que Tim Curry conseguia. Todos os temores levantados pelo primeiro trailer em relação à escalação do ator se concretizaram, ao menos para mim. Não bastou mais do que uma cena – logo a primeira, a clássica do barquinho no bueiro – para perceber que não havia nada de convidativo na interpretação do jovem Bill Skarsgard.

Pennywise acabou sendo mais assustador somente ao assumir a forma dos medos pessoais de cada criança. E não como palhaço. Frustrante, no mínimo.

‘It – A coisa’ tem pouco problemas e estes não são suficientes para ofuscar a ótima – porém não excelente – adaptação da primeira metade do livro de Stephen King. Se não quiser ir pelo medo, vá pelas risadas. Com um elenco energético e interessado no projeto, elas se fazem presentes para aliviar a tensão em acompanhar crianças sendo assombradas pelo palhaço mais famoso do gênero.

 

Deixe seu comentário

Este artigo não possui comentários

Os comentários estão fechados.